domingo, 8 de agosto de 2010

A FÉ – Sua Natureza, Estrutura e sua Significância para Ciência

O texto que se segue, de autoria do filósofo reformado e antigo professor de filosofia da Universidade Livre de Amsterdam, D. H. Th. Vollenhoven. É um longo texto, do tipo formação de opinião. No discurso que ele apresentou na Conferência dos Estudantes - em Utrech, Holanda, em 1950. O assunto geral é sobre Fé, Ciência e o Cientista. O tema encontra-se no título desta postagem. O texto de Vollenhoven discorre sobre a base epistêmica do cientista e do fundamento pístico da ciência. Espero os comentários dos leitores, especialmente os interessados no debate fé x ciência.
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A FÉ – Sua Natureza, Estrutura e sua Significância para Ciência

Por D.H.Th. Vollenhoven
Professor Emeritus - Universidade Livre de Amsterdam

Observações feitas na Conferência dos Estudantes – em Utrech, Holanda, 1950 – sobre Fé, Ciência e o Cientista.

Esta é uma tradução provisória de um discurso originalmente publicado em Geloof en Wetenschap: Levensbeschouwing en levenshouding van de Academicus. Utrecht – Nijmegen: N.V. Dekker & Van de Vegt[1].

Você está convidado a contribuir para este Congresso. Eu alegremente responderei a ele. Não apenas por causa das lembranças prazerosas de meus dias de estudante em Utrech em 1946, mas também, e especialmente, para reforçar nosso contato. Pois, se eu vejo corretamente, Católicos Romanos e Calvinistas na Holanda estão tornando-se estranhos uns aos outros – para detrimento de nosso país. Se esta está para mudar, é necessário, primeiro, um entendimento mútuo e claro. Poucas ocasiões são mais propícias para isto do que congressos com estes.

I. A Natureza da Fé

Tomando “fé” no sentido de fé religiosa e, primariamente, no sentido ativo de “crença” – então qual é a natureza da “fé”?

Eu descreveria fé no sentido de crença como a mais alta função na vida individual do homem. Se um homem é cristão ou – para mencionar os extremos – um pagão, é, claro, terrivelmente importante, mas incidental para nossa definição; todos possuem fé. Isto é assim porque crenças pertencem à estrutura da vida humana, na qual, a despeito de importantes diferenças na realização, é a mesma para todos.

Com esta estrutura (da vida humana), nós podemos, além disso, distinguir o “interior” e o “exterior”, ou, se você preferir, o central e o periférico, coração [2] e funções (‘functiemantel’).

Quando eu assim considero fé a mais alta função na existência humana, duas coisas são indicadas: por um lado, que a crença é apenas uma função; e, por outro lado, que a crença é mais importante na escala de funções.

Primeiro: crença é apenas funcional. Isto quer dizer: fé não é idêntica ao coração, mas é determinada pelo coração, seja para o bem ou mal, isto é, na obediência da lei do amor ou não. Em outras palavras, o homem integral é religioso, e sua vida é um caminhar ante a face de Deus em obediência ou desobediência.

Mas também: na estrutura da existência funcional a fé ocupa o lugar mais importante. Esta função é a mais alta, em que implica que todas as outras são mais baixas, e, assim, juntas formam o substrato da fé. Então, é a isto que a fé refere a todas outras funções e que estas, após outras, assinalando adiante para (antecipar) fé. Fé, então, é parte do “manto” funcional e, com isto, da estrutura do homem; e não algo que nunca foi perdido e que possa, posteriormente, retornar como donum superadditum, um dom superadicional (da graça)

Até agora, eu considerei fé na existência individual. Mas um homem nunca vive desta maneira: ele é nascido da comunidade e dentro de muitas comunidades. Existem muitas dessas relações sociais. Pense, por exemplo, da associação, empreendimento econômico, o estado e a família. Todas estas relações sociais têm em comum o fato de elas terem formações históricas em como seus fundamentos, além do que elas implicam a vida da linguagem, observação de formas sociais e sexuais, enquanto suas mais altas funções delimitam seus destinos.

A comunidade de fé também é uma estrutura social. Isto também é inerente na vida humana. Não apenas no Cristianismo, mas também entre os pagãos uma comunidade de fé é conhecida. Nos arredores cristãos, estas comunidades são chamadas de “igrejas”.

A igreja tem, portanto, assim como as relações sociais que acabamos de nos referir, um caráter funcional. Deve-se distinguir “igreja” de “corpus christianum”, o povo do Senhor, que é uma comunidade pré-funcional arraigada em Cristo. Daí os ofícios da igreja serem também funcionais e deveria ser distinguido dos ofícios pré-funcionais em que caracteriza os atos dos homens em assuntos que são feitos pela humanidade perante Deus.

Com isto, chegamos à genética. A vida humana não é algo apenas presente: ela também tem um passado. Este passado desempenha seu papel na educação que prepara um indivíduo jovem para estar na sociedade, dentro das relações sociais, quando ele tem “maioridade”. Mas o passado também é importante para a comunidade – elas também têm história. Aqui também a direção é determinada pelo coração, bem como a religião; ou seja, pela relação com Deus. É por isso que a queda de Adão foi determinativa para a história da religião. Adão não perdeu a fé – a redirecionou: ele já não acreditava mais em Deus, mas em Satã. Mas ele perdeu seu ofício pré-funcional, que posteriormente foi confiada a Cristo como o segundo Adão.

Assim, pode-se entender que a fé, embora seja sempre uma função de uma existência humana individual, é incorporada não apenas na totalidade daquela existência, mas também na vida da humanidade, seja em Cristo ou não – não importa quantas vezes a vida real mostra um esforço misto em ambas as direções de uma vez.

II. A Estrutura da Fé

Sendo funcional, a fé é sujeita à lei funcional; neste aspecto, é semelhante a todas as outras funções. Agora, lei e função nunca se aglutinam – não na fase pré-analítica. Mas no caso da função analítica (também chamada de lógica), nos depararmos com algo peculiar. Sua natureza é: analisar, distinguir. Distinguir é simplesmente observar a diversidade existente de forma independente em relação a esta atividade de distinção. Portanto, a analítica é também capaz de observar a distinção da lei e função. Não apenas em outra esfera da lei, mas também no caso da análise própria. Daí a função analítica poder distinguir a si mesmo da lei que a sustenta. Se for possível chamaremos esta lei de “norma”. Então, lei e norma não devem ser colocados em oposição um ao outro, mas devem ser distinguido entre as leis que são normas e leis que não são normas.

Em razão das relações mútuas entre as funções, não existe pós-função analítica sem auto-identificação; as leis para todas estas funções conseqüentemente são normas. É por isso que falamos de normas para a analítica, para o técnico-histórico, para a linguagem, para a vida sexual, para a economia etc.

Assim também a fé é submetida a uma lei que é uma norma. Esta norma é a palavra de Deus em seu aspecto-fé ou – no paganismo – que toma o seu lugar. Em esta norma requer reconhecimento.

Além disso, a função-fé não é apenas a norma na lei que se correlaciona com a função: sujeito a esta lei esta, também permanece na relação como todas as coisas, salvo que é sujeitada para esta lei. Parte disto é sujeito, para é objeto.

Objetos na esfera da fé são todas as coisas que não tem fé como uma função-sujeito; elas também desempenham uma parte na vida de fé; como Cristão, eu acredito que todas as criaturas, com base na revelação, são criaturas de Deus. Os sacramentos ocupam um lugar especial: eles permanecem o que são, mas ao mesmo tempo eles servem à proclamação como sinal e selo, isto é, para esclarecer e confirmar.

A Fé também está relacionada ao seu substrato (ou seja, a outras funções). A Fé não só repousa sobre ele, mas forma um todo com ele. É por isso que a fé refere-se a este substrato por meio de características que são inerentes à fé; a alegria e a tristeza da fé referem-se ao físico; seu pensamento e conhecimento ao analítico; seu sacrifício, ao econômico; sua confiança ao ético. Esta retrocipação [3] não é o elemento no sentido que se poderia dizer: a fé consiste de alegria mais sacrifício mais confiança. A Fé é algo único, sui generia; não se pode defini-la de outra maneira a não ser dizer que ela é a função mais alta. Mas estas características estão implícitas na fé sem qualificar a fé; o debate sobre se a fé é emocional, cognitiva ou volitiva é, portanto, sem sentido.

Assim, o conhecimento não é mais importante na fé do que, por exemplo, a confiança seja. Mas no que diz respeito ao nosso tema, esta característica merece um momento de nossa atenção especial. E, por isso, observamos, em primeiro lugar, que este pensar e conhecer são de caráter não-científico: ele, certamente, não poderá ser confundido com a fé, que pertence à Teologia. Entendendo escrituramente, fé é o conhecer a Deus por meio de Jesus Cristo.

III. O Significado de Fé para Ciência.

O pensamento e o conhecimento teoréticos são bastante diferentes do pensamento e conhecimento não-teoréticos. O último é sempre interessado com as coisas em sua totalidade, como por exemplo, quando eu observo as coisas em minha volta.

Mas o pensamento teorético (científico) é feito metodologicamente: cada ciência especial investiga um aspecto do todo. O método determina não apenas nosso pensamento, mas também o campo de investigação e o objeto que este lhe pertence também, e até mesmo em primeiro lugar.

O pensamento não-teórico e teórico não pode ser reduzido um ao outro. O primeiro não é menos importante que o ultimo, mas diferente. A vida prática do homem e a mulher são como tal, não inferior a do homem e da mulher na ciência: muitas vezes, sua visão é ainda mais aguda. Quem impõe o critério da ciência acima do pensamento e conhecimento não-teórico viola da vida prática; viola sua própria vida, porque também na vida do cientista, o conhecimento não-teórico mantém um importante lugar.

Mas apesar do conhecimento não-teorético e teorético não poderem ser mutuamente reduzidos, não quer dizer que eles são antagônicos. Eles são até mesmo positivamente relacionados entre si. Já que o conhecimento começa com o conhecimento não-teorético e, então, às vezes, prossegue para conhecimento diferenciado nas ciências especiais; nesta volta ele é aprofundado e enriquecido de modo que na filosofia reúne-se o conhecimento do todo.

Em tudo isso, o conhecimento não-teorético da fé ocupa um lugar especial. Pois, toda fé como função permanece função do homem; no entanto, quando alguém ouve atentamente a revelação da Palavra (a qual é confiável em si – e, assim, não precisa de testemunho para cooperá-la), ele não apenas aprende alguma coisa sobre o cosmo, mas também sobre Deus e sua relação com o cosmo. Se alguém, porém, acredita em Genesis 1.1, ele também conhecerá algo sobre Deus, ou seja, que Ele criou o mundo; e conhecerá algo sobre o cosmo, ou seja, que o mundo inteiro é criação de Deus. E este conhecimento considera os pontos principais – se você quiser: o quadro conceitual. Pois, se uma vez eu tenho este conhecimento, ele não deixa espaço para idolatrar nada criado e, positivamente, conduz-me a reconhecer a característica universal de toda criação: ela é colocada sujeita à lei de Deus e sujeita a Deus.

O mesmo vale para o conhecimento da fé concernente à história. Aqueles que confessam a Queda no pecado entendem que a queda do homem, embora não tenha sua estrutura alterada, radicalmente mudou sua direção: enquanto nenhuma nova mudança ocorra (conversão), ele não viverá corretamente guiado. O conhecimento não-teorético inclui aquilo que nós conhecemos a respeito da ira e da graça de Deus. Ambas são revelações da disposição de Deus para o pecado e para o pecador. A graça nunca, em um modo não concebível, está em oposição à natureza, mas sempre contra a ira. Quanto à relação da graça para natureza (caída), interessa-se: a melhor maneira de ser visto como chamado à vida e como cura. Pois a graça traz dons da graça, e o maior desse é a conversão do coração, a regeneração. Portanto, esta também não é uma dimensão extra recebida como um donum superadditum, mas a influência da graça por meio da qual nós começamos novamente a viver em obediência por amor, não apenas na “esfera religiosa”, mas como homens e mulheres em uma plenitude integral.

Os conceitos de conhecimento não-teorético da fé são, por conseguinte, conceitos totais. Eles não podem substituir os conceitos de investigação científica, mas enquadrá-los: o que quer que eu encontre por meio da investigação científica, cedo ou tarde, se encaixa nesse esboço.

Fé, seja cristã ou pagã, não pode ser considerada “além” da investigação. Mas o trabalho teorético é sempre uma ciência especial sobre a fé que, como campo de investigação, existe antes que a investigação possa começar e, portanto, não é construída ou fundada pela ciência.

Conclusão:

Se formos ver as relações nestes dois sentidos as coisas são assim entendidas:

Uma base teorética para fé cristã é impossível.

Mas, ao contrário, um fundamento cristão da ciência é certamente possível. É mesmo o primeiro requisito. Pois, a ciência não está fundamentada sem uma introdução de uma estrutura em que também o conhecimento cientifico deveria ser colocado.

Estas coisas são de grande importância para o investigador trabalhar. Elas incorporam seus esforços na grande luta pela verdade. Elas alimentam a responsabilidade: a ciência é parte de nossa vida – uma vida à serviço de Deus. Assim, a ciência é parte de nosso andar perante a sua face. Além disso, elas aguçam nossa visão, não apenas para aquilo que nós investigamos, mas também para o que está faltando por causa do pecado. Por exemplo, um historiador não apenas descreve o que ele encontrou em um autor pagão como Platão, mas ele verá o que Platão não conseguiu. Em outras palavras:

Ser um Cristão é infinitamente mais que ser um estudante.

Ser um Cristão é ser autorizado a estudar; assim, é mais do que não ser um estudante.

E ser um estudante Cristão é infinitamente mais do que estudar como um não-cristão. Pois o Cristão estuda toda a vida; portanto, também seu lado teorético incluindo atividades e resultados, está escondido em Deus.
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Notas:
[1] A minha tradução já foi da tradução inglesa do artigo em Holandês - NT
[2] O autor usa o termo como “centro religioso e espiritual da existência humana”(H. Dooyeweerd)
[3] Na Filosofia Reformada, o termo indica “Uma característica em certa modalidade que se refere a uma esfera anterior na escala modal, como uma espécie de reminiscência ou “lembrança”, mantendo a qualificação modal do aspecto no qual se encontra. A “extensão” de um conceito, por exemplo, é um tipo de espaço lógico: ‘lembra’ a esfera espacial, apontando para o seu núcleo de sentido, mas permanece com um sentido estritamente lógico.”(A. WOLTER in CARVALHO, Guilherme. Introdução à Filosofia Reformacional. São Paulo: AKET, s/d, p. 149)

Fonte: Reformational Publishing Project / PROF. GASPAR SOUZA

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Uma Apresentação Panorâmica da Vida, Pensamento e Antecedentes Intelectuais de Herman Dooyeweerd – Parte I por Fabiano de Almeida Oliveira[1]

RESUMO
O pensamento reformacional de Herman Dooyeweerd ainda é relativamente desconhecido no Brasil. O presente artigo pretende remediar essa situação, contribuindo para torná-lo um pouco mais conhecido e despertar o interesse em futuros estudos sobre a Filosofia da Idéia Cosmonômica, como é comumente conhecido esse sistema teórico de pensamento. Contudo, esta apresentação panorâmica em hipótese alguma pretende dar conta do horizonte geral do pensamento dooyeweerdiano, visto ser esta uma tarefa de fôlego destinada a um trabalho de maior envergadura. A proposta aqui apresentada presta-se apenas a proporcionar um vislumbre geral da vida e do pensamento desse autor, do ambiente onde floresceu o seu pensamento, o neocalvinismo holandês ou calvinismo kuyperiano, e do que representou a sua obra, sobretudo para a fé reformada. As idéias e análises de Dooyeweerd sempre estiveram arraigadas numa biocosmovisão calvinista, sendo, por isso, contribuições profundas e inestimáveis para a academia cristã-reformada.



PALAVRAS-CHAVE
Herman Dooyeweerd; Abraham Kuyper; Neocalvinismo holandês; Biocosmovisão;
Filosofia da Idéia Cosmonômica; Crítica teo-referente.

INTRODUÇÃO

Herman Dooyeweerd (1894–1977) foi de longe uma das mais frutíferas contribuições do movimento neocalvinista holandês à causa cristã, especialmente no que diz respeito à esfera cultural. Seu esforço em erigir um edifício teórico-sistemático se deu sem que se deixasse intimidar e nem abrir mão dos pressupostos da Palavra de Deus, o que comumente acontece quando se tenta dialogar com o pensamento cujas conclusões não estão necessariamente alicerçadas nas Escrituras Sagradas. Tal atitude, na melhor das hipóteses, quase sempre resulta em sínteses religiosas entre os genuínos pressupostos cristãos e os pressupostos não-cristãos, redundando em uma biocosmovisão[2] quimérica.


A filosofia de Dooyeweerd não foi forjada num vácuo intelectual; pelo contrário, seu pensamento se originou e se desenvolveu dentro de um ambiente cultural marcado pelo avivamento produzido pelo movimento neocalvinista holandês. Este lhe forneceu a visão ou concepção unificada de vida e de mundo, ou nos termos de Abraham Kuyper, uma biocosmovisão radicalmente baseada nos pressupostos da Escritura tal como apresentados pela tradição calvinista. Portanto, o pensamento de Dooyeweerd deve ao movimento neocalvinista holandês a sua orientação religiosa básica. Estes temas e pressupostos neocalvinistas ganharam uma formulação técnica e conceitual ao serem jungidos à estrutura metodológica fornecida, principalmente, por duas correntes filosóficas alemãs muito influentes nos dias de Dooyeweerd, o neokantismo ou neocriticismo alemão, sobretudo da Escola de Baden, representada por filósofos como Wilhelm Windelband (1848-1915) e Heinrich Rickert (1863-1936), e a fenomenologia de Edmund Husserl (1859-1938).[3]


O neocalvinismo foi uma força intelectual muito relacionada à construção de uma biocosmovisão cristã baseada na Escritura. A filosofia alemã, neste caso o neokantismo e a fenomenologia de Edmund Husserl, forneceram a Dooyeweerd o ferramental técnico e a estrutura metodológica propriamente dita de seu pensamento. Em outras palavras, é possível dizer que enquanto o movimento neocalvinista legou a Dooyeweerd uma biocosmovisão baseada na Palavra de Deus, a filosofia alemã lhe emprestou a metodologia apropriada para que aquela biocosmovisão fosse expressa através de uma filosofia técnica no sentido rigoroso da palavra[4]. Este artigo se limitará à apresentação do movimento neocalvinista holandês responsável pela biocosmovisão que Dooyeweerd tentará sistematizar.[5]


Os Antecedentes Culturais e Intelectuais do Pensamento de Herman Dooyeweerd: O Neocalvinismo Holandês

Foi o próprio Dooyeweerd que confessou que a Filosofia da Idéia Cosmonômica era fruto do reavivamento calvinista na Holanda liderado por Abraham Kuyper, ocorrido nas últimas décadas do século 19[6]. Desde o século 19 os calvinistas holandeses passaram a se envolver de maneira muito intensa com o exercício da responsabilidade cultural. Isto se deu em virtude de uma reforma levada a efeito principalmente por dois líderes calvinistas: Guillaume Groen van Prinsterer (1801-1876) e Abraham Kuyper (1837-1920). Tal reforma se fez necessária em função do declínio espiritual da igreja do estado, a Igreja Reformada da Holanda, cujo vigor espiritual e ortodoxia doutrinária haviam se perdido, resultado do contínuo processo de secularização possibilitado pelos efeitos tardios da filosofia iluminista do século 18. O mesmo fenômeno se repetia em toda a Europa: as igrejas históricas estavam morrendo e o liberalismo teológico tomando o lugar da ortodoxia. Entre elas também se encontrava a Igreja Reformada da Holanda[7].


Nesse período, várias igrejas e concílios iniciaram uma série de protestos, reivindicando o retorno aos padrões históricos de fé que estavam sendo pouco a pouco desprezados pela igreja do Estado. Os dois principais movimentos de protesto foram o Afscheiding[8], ocorrido na primeira metade do século 19, e o Doleantie, que se deu na segunda metade desse mesmo século. Todos esses movimentos de insatisfação dentro da Igreja Reformada da Holanda resultaram em cisões. A cisão provocada pelo Afscheiding se deu em 1834, sob a liderança de Hendrik Cock e H. P. Scholte[9]. Esse movimento resultou na criação da Igreja Cristã Reformada da Holanda. O primeiro grande líder dessa resistência foi Guillaume Groen van Prinsterer, que muito se esforçou para restaurar a pureza original da Igreja, levando as idéias desse movimento às escolas e fundando um partido político cristão. O segundo grande líder e sucessor de Groen van Prinsterer foi Abraham Kuyper. Kuyper foi o líder da cisão de 1886 conhecida como Doleantie[10]. Esse movimento teve o seu centro na cidade de Amsterdã, onde, alguns anos antes (1880), Kuyper havia criado a Universidade Livre. O Doleantie resultou no segundo maior cisma dentro da igreja estatal[11], sendo, de certa forma, uma continuação do movimento de insatisfação iniciado no Afscheiding por causa da crescente introdução de conceitos liberais que estavam produzindo frouxidão doutrinária. Este movimento também foi um protesto contra a política eclesiástica da igreja do Estado.


O termo “neocalvinismo”, ao que parece, foi criado pelos simpatizantes e seguidores de Kuyper e popularizado pelos seus críticos reformados que desejavam acentuar as diferenças entre Calvino e o calvinismo revitalizado kuyperiano[12]. Um dos críticos contemporâneos mais ácidos de Kuyper e de seus seguidores, que ajudou a popularizar esse termo, foi Foppe M. Ten Hoor, um pastor da Igreja Cristã Reformada da América e também professor de teologia sistemática no Calvin Theological Seminary, em Grand Rapids, de 1900 a 1924[13]. Segundo John Bolt, o termo apareceu pela primeira vez num impresso de 1897, feito por um jurista holandês chamado A. Anema, que era professor da Universidade Livre de Amsterdã, além de grande simpatizante da obra de Kuyper[14]. No início, o termo tinha uma conotação pejorativa. Prova disso é que o próprio Kuyper se autodenominava um calvinista histórico[15]. Entretanto, aos poucos essa expressão passou a ser vista como símbolo de um calvinismo integral voltado à totalidade da vida. O neocalvinismo foi um movimento de caráter eclesiástico-cultural baseado no resgate dos princípios da reforma calvinista e na reinterpretação, baseada nestes mesmos princípios, dos deveres cristãos frente às demandas sócio-culturais de sua própria época. Este movimento representou o reavivamento do interesse pelo pensamento de João Calvino vividamente aplicado às questões da época[16]. O movimento, por algumas décadas, exerceu uma forte influência sobre a vida cultural e política da Holanda, propondo a construção de uma “biocosmovisão” cristã-calvinista[17]. Foi o próprio Kuyper quem articulou essa cosmovisão de maneira paulatina, através de seus artigos publicados por vários anos nos periódicos Standaard e De Heraut, e em muitos livros que escreveu, principalmente na obra que ficou conhecida como Stone Lectures on Calvinism, uma série de palestras proferidas no Seminário Teológico de Princeton, nos Estados Unidos, em 1898. Nessa série de palestras, Kuyper apresenta o calvinismo como uma força cultural, um sistema de vida não restrito às esferas eclesiástica e teológica[18]. Kuyper estava convicto de que era através de um resgate do calvinismo original que o cristianismo poderia se opor vigorosamente aos princípios apóstatas resultantes do pensamento moderno[19].


Kuyper não chegou a desenvolver a sua biocosmovisão na forma de um sistema teórico que servisse de ponto de partida estrutural para a edificação teoreferente das demais áreas do conhecimento humano, com exceção da teologia, que contou mais de perto com o seu gênio sistemático. Seu sucessor na cadeira de dogmática da Universidade Livre de Amsterdã, Herman Bavinck (1854-1921), era dogmático por profissão e também sentia a necessidade de uma estrutura filosófica cristã fiel e em linha com a Revelação, tendo até escrito um ensaio intitulado Filosofia da Revelação para preencher essa lacuna. Ambos, Kuyper e Bavinck, contribuíram com princípios gerais para a causa neocalvinista; em suma, contribuíram com a formulação de uma biocosmovisão. No entanto, a sistematização destes princípios na forma de um corpo filosófico consistente e unificado só surgiu anos mais tarde com o trabalho pioneiro de Dooyeweerd e seu cunhado Dirk Hendrik Theodoor Vollenhoven (1892-1978).[20]


Fonte: Revista Fides Reformata XI, nº 2, 2006.

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Notas:

[1]O autor é ministro da Igreja Presbiteriana do Brasil; bacharel em Teologia pelo Seminário Unido de Teologia – RJ; bacharel em Filosofia pela Universidade de São Paulo; mestre em Teologia com concentração em Filosofia pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper; mestrando em Filosofia pela Universidade de São Paulo.


[2] Biocosmovisão ou simplesmente “cosmovisão” – literalmente “visão ou concepção de vida e de mundo”, termo cognato do alemão Weltanschauung, muito encontrado na filosofia de Wilhelm Dilthey; foi empregado por Abraham Kuyper nas suas famosas “Palestras sobre o Calvinismo” para descrever o calvinismo como um sistema integral pré-discursivo pelo qual se compreende e se interpreta a vida e o mundo. Ver WOLTERS, Albert M. The intellectual milieu of Herman Dooyeweerd. Em: MCINTIRE, C.T. (org.). The legacy of Herman Dooyeweerd: Reflections on critical philosophy in the Christian tradition. Lanham, Maryland: University Press of America, 1985, p. 4.

[3] Ibid., p. 12.


[4] A apropriação de alguns aspectos metodológicos do pensamento neokantiano e fenomenológico não deve ser confundida com uma síntese de pressupostos ou mesmo com uma absorção acrítica e irrefletida do conteúdo filosófico destas escolas, como será visto mais à frente. É preciso lembrar que Dooyeweerd se propõe a criar um sistema teórico fundamentado na antítese religiosa entre os pressupostos religiosos da Escritura e os do mundo apóstata. Dooyeweerd sempre lutou ardorosamente contra toda sorte de conformação do pensamento cristão com o pensamento não-cristão de seu tempo. No entanto, tal como Calvino, também cria na existência de muitos momentos de verdade no pensamento não-cristão em virtude da graça comum de Deus.


[5] Dois textos em particular tentam, muito cautelosamente, remontar às origens intelectuais e culturais do pensamento e da metodologia empregada no pensamento de Dooyeweerd. São eles: KNUDSEN, Robert D. Dooyeweerd’s philosophical method. Apresentação feita na Conferência Anual de Filosofia do Wheaton College. Wheaton, Illinois: Wheaton College, 1962. Essa palestra mais tarde foi incluída num texto mimeografado do próprio Knudsen intitulado Philosophia reformanda: Reflections on the philosophy of Herman Dooyeweerd, 1971; e WOLTERS, Albert M. The intellectual milieu of Herman Dooyeweerd. Esse texto se encontra na obra The legacy of Herman Dooyeweerd: Reflections on critical philosophy in the Christian tradition, cujo editor geral é C.T. McIntire.


[6] DOOYEWEERD, Herman. A new critique of theoretical thought. Jordan Station, Ontario: Paideia Press, 1984, vol. 1, p. 523.


[7] WALSH, Brian; CHAPLIN, Jonathan. Dooyeweerd’s contribution to a Christian philosophical paradigm. Toronto: The Association for the Advancement of Christian Scholarship, 1982, p. 2.


[8] Afscheiding é um vocábulo holandês que quer dizer “separação”.


[9] AAMSMA, Louis. Doleantie. In: HUGHES, Philip E. (org.). The encyclopedia of Christianity. Marshallton, Delaware: The National Foundation for Christian Education, 1972, vol. 3, p. 432.


[10] O termo Doleantie vem do verbo holandês dolerende que significa “queixar-se”, “lamentar”, “reclamar”, e indica a postura dos crentes fiéis diante da atitude desconfortável daqueles que estavam promovendo inovações às custas do sepultamento da tradição confessional da Igreja. Vide BOLT, John. A free church, a holy nation: Abraham Kuyper’s American public theology. Grand Rapids: Eerdmans, 2001, p. 454, n. 25.


[11] BOLT, A free church, a holy nation, p. 190.


[12] Ibid., p. 444.


[13] Ibid. Para mais detalhes acerca da crítica de F. M. Tem Hoor a Kuyper, Bavinck e seus seguidores, remeto os leitores ao capítulo 8 da obra de BRATT, James D. Dutch Calvinism in modern America: A history of a conservative subculture. Grand Rapids: Eerdmans, 1984.


[14] Ibid.


[15] Isso fica claro, por exemplo, nas suas Stone Lectures on Calvinism, que foram publicadas recentemente em português pela Editora Cultura Cristã. KUYPER, Abraham. Calvinismo. São Paulo: Cultura Cristã, 2002.


[16] BOLT, A free church, a holy nation, p. 444.


[17] WOLTERS, The intellectual milieu of Herman Dooyeweerd. Em: MCINTIRE, The legacy of Herman Dooyeweerd, p. 2.


[18] ZYLSTRA, Bernard. Introduction. Em: KALSBEEK, L. Contours of a Christian philosophy: An introduction to Herman Dooyeweerd’s thought. Toronto: Wedge Publishing Foundation, 1981, p. 18.


[19] KUYPER, Calvinismo, p. 19.


[20]D. H. Th. Vollenhoven era professor de filosofia da Universidade Livre de Amsterdã.


Extraído do site: ELEITOS DE DEUS

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quinta-feira, 15 de abril de 2010

RELIGIÃO: SE DISCUTE OU NÃO? por Guilherme de Carvalho

"Pode enriquecer-se através de um ofício que não lhe agrada, pode ser curado de uma doença por remédio nos quais não confia; mas não pode ser salvo mediante religião na qual não confia, ou por um culto que não lhe agrada [...] Seja qual for a religião discutida, é certo, porém, que nenhuma religião pode ser útil e verdadeira se não se acredita nela como verdadeira".
[John Locke, "Carta acerca da Tolerância"]

É um lugar-comum ouvir pessoas afirmando que religião, como futebol, não é bom assunto para discussão, mas quem há escape de cair vez por outra nesse "pecado"? Como é do meu ofício, eu costumo refutar esse lugar-comum com muitos exemplos e argumentos, mas é claro que ele tem um fundo de verdade.


Não tanto quanto ao futebol, mas com certeza quanto à religião. Pois religião tem que ver com coisas sagradas. Sim, muita gente não discute religião porque considera isso uma questão de absoluta subjetividade; mas para muita gente a motivação é bem outra: é que a religião é vista como algo de absoluta sacralidade.


Nessa semana conversei rapidamente com uma moça que se mostrou extremamente avessa à religião. Entramos no assunto por acaso, mas ela logo fez questão de anunciar seu desgosto com igrejas, leis, pastores, ritos, etc. Então eu perguntei sobre Deus: e ela disse: "às vezes estou bem com ele, às vezes nem quero saber. Atualmente estou na fase de não querer saber".


Típico: aquela atitude para com a religião que reproduz a atitude com biscoitos. Num dia você lamenta não ter biscoitos no armário; no outro, tem enjôo só de pensar.


Imediatamente eu repliquei: "sim, nossa relação com certas coisas é naturalmente desengajada, utilitária. Podemos decidir se vamos passear ou ficar em casa no feriado. Podemos experimentar suco de uva ou suco de laranja. Mas tem coisa que não dá para experimentar assim, desinteressadamente. Não há como experimentar o que significa ter filhos adolescentes hoje e 'desesperimentar' amanhã. Se você entrar num casamento, e tiver filhos, e cuidar deles até à adolescência, 'it's done'. Sua vida está feita. Sua flecha foi lançada. Acabou".


A moça me levou a sério. Ficou de pensar no assunto.


Então, até quando ouvimos essa resposta, "religião não se discute", temos excelente material de discussão: por quê discutimos com facilidade certas coisas, e não outras?


A verdade é que a religião, no sentido daquilo que é momentoso, supremo, que é a fonte absoluta de sentido para o todo da vida, é algo tão sagrado, tão intocável, e ao mesmo tempo tão frágil, que não podemos nos aproximar dela de qualquer jeito. Não é questão de gosto.


Em particular, entrar em um relacionamento com Deus - ou não entrar - não é algo que pode ser experimentado levianamente, como se prova frutas em um sacolão. Somente depois de mergulhar num relacionamento que compromente cada fio do seu cabelo (como é o caso, se falamos de Deus) é que o homem compreende plenamente o que fez, e reconhece em si mesmo todos os efeitos de sua escolha.


Apesar de não ser o foco de John Locke em sua "Carta Acerca da Tolerância", cujo tema mais amplo é a liberdade de culto em os limites do poder do Estado, tive muito prazer em recolher da fazenda de Locke este pequeno fruto, tão óbvio por um lado, mas tão ignorado por outro.


Muita gente frequenta igreja e não "sente nada", e não vê "nada mudar", porque nunca deu realmente aquele passo gravíssimo, que só pode ser dado em silêncio e de mãos postas: muita gente "experimenta" Deus e não vê nada acontecer em sua vida exatamente por isso: porque insiste em se aproximar do evangelho como quem entra em um provador de loja de roupas.


Mais do que todas as coisas na vida, Deus e a verdade cristã só são compreendidos no útero da fé. O cristianismo é uma terapia que nos transforma permanentemente depois que nos submetemos a ela, não dá para entrar e sair da terapia quando se bem entende. Nesse sentido, religião não se discute - aquilo no qual colocamos a nossa confiança de forma absoluta não se sujeita a "exame objetivo".


Isso explica também porque as pessoas são tão dogmáticas, e não tem com a religião a mesma atitude que tem com a ciência. Muita gente com formação científica não consegue entender isso jeito nenhum; mas eu descobri que em boa parte das vezes, tais pessoas padecem de uma combinação de falta de experiência de vida com pura falta de imaginação. Por incrível que pareça, muita gente educada, diplomada, universitária, etc., tem personalidade de esteta. Não tem a mais vaga idéia do que significa estar absolutamente comprometido com pessoas (com teorias e programas de pesquisa, talvez).


Há céticos que são convencidos pelo argumento. Mas eu estou convencido de outra coisa: a maior necessidade de muitos céticos educados - assim como muitos cristãos sarcásticos e cerebrais - é nem tanto de um bom argumento apologético, mas de um casamento, e de uma penca de filhos; ou de uma enfermidade que os tornem dependentes de familiares, médicos e tratamentos incertos; de alguma coisa, enfim, que os lembre do significado da palavra "confiança".


E não será por isso que tanta gente nem quer mais saber de relacionamentos sérios? É porque ninguém confia em ninguém na sociedade de hiperconsumo.


Bons tempos aqueles, quando as pessoas temiam discutir religião porque tinham fé, e não porque tem medo de serem processadas por preconceito!

Fonte: GUILHERME DE CARVALHO

segunda-feira, 29 de março de 2010

CONSELHO AOS FILÓSOFOS CRISTÃOS - ALVIN PLANTINGA

O texto que se segue é bem maior do que o que costumo postar aqui. Há muito eu queria traduzir este texto de Plantinga. O blogueiro Vitor Grando poupou-me o trabalho. Segue a postagem feita por ele, incluindo uma pequena introdução do próprio Vitor com três links para pesquisa sobre Plantinga (o link para o original em inglês está aqui e os links do artigo traduzido também foram inseridos pelo Vitor). ROBERTO VARGAS JR.

Conselho aos Filósofos Cristãos - Alvin Plantinga

Alvin Plantinga é um filósofo cristão que dispensa qualquer comentário. Tido como um dos maiores filósofos cristãos das últimas décadas, Plantinga foi um dos grandes responsáveis pelo ressurgimento do teísmo cristão no âmbito filosófico profissional nos últimos anos. Seus trabalhos em filosofia da religião e epistemologia causaram verdadeiras revoluções nas respectivas áreas. Este é o 5º artigo do Plantinga que este blog tem o privilégio de traduzir. Neste artigo clássico divulgado em 1984, Plantinga fala sobre a apropriada relação do filósofo cristão com sua disciplina, ele defende que o filósofo cristão não pode prontamente adotar as metodologias correntes no âmbito filosófico profissional por serem, boa parte delas, nocivas ao pensamento cristão. Plantinga defende uma maior independência e autonomia da comunidade filosófica cristã em relação ao resto da comunidade filosófica. É um artigo importante não só para filósofo mas como para qualquer crente que busca uma vida intelectual responsável e cristã. Sugiro também a leitura do artigo Como Pensar Sobre o Secularismo, do teólogo alemão Wolfhart Pannenberg, que também fala da relação do cristão com a cultura secular ao seu redor.

Maiores informações, CLIQUE AQUI.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010